Servo + O Manipulador, Woodstock 69, Porto, 28.06.2019. Part 1 – O Manipulador

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© Guilherme Lucas

words: Guilherme Lucas (freely translated by Raquel Pinheiro); photos Guilherme Lucas

O Manipulador is musician Manuel Molarinho’s – better known as the bass player and singer of Porto’s duo Baleia Baleia Baleia, one man band project. I confess that only very recently – when reading the event on Facebook for the concert in Campanhã’s bar have I heard about Manipulator. A deep analysis of what his work on Youtube Bandcamp and so, I nearly instantly went into loop mode during my daily listening of what I heard, and saw, about him. No need to add much more about how much I liked his music . I was amazed to realize the project has existed for 9 years, already something of a “veteran”  compared with the fresh existence of Baleia, Baleia, Baleia.

Attentively listening to his songs on his Bandcamp I was strongly convinced it was a very interesting and original project, with good songs pop-rock with a strong experimental-electronic inclination and something psychedelic (those are, in fact, huge songs, I Know  being an obvious case), and other great tracks, that aren’t specifically songs, have their own personality. His lyrics are equally good: short and accurate, such brief pamphleteering poetry of opposite feelings, totally rock’n’roll, between failure, anguish and love love, and the hope to erase it all. In a nutshell: I like everything in Manipulator’s music; Touching for my parameters.

Last Saturday’s concert would assist to realize how everything of his I have been hearing up to this point, and almost daily, would be live. I went  expecting to listen to some of his songs that captivated me most, but that was not the case. The concert was performed in a different concept, different from his recordings, but only when it come to song format. It was a performance of experimentation, obviously with some recognizable links to his discography, but with the improvisation reflected in many of his songs sound textures. In such regard, the show was very good and the audience t proved it at the end of each of track, thanking with warm applause.

One must praise the clever and very diversified way in which Manuel Molarinho performs his music. It is not only good taste that prevails in his performance, but also the wit of being able to offer a melting pot of several influences to the audience, performing a very idiosyncratic, coherent and adult work. The way he “humanizes” many of his digital sounds that reverberate through the paraphernalia of his bass pedals is remarkable.

Because of his obvious talent Manuel Molarinho is a great musician, one of those one must have in high regard for years to come within our musical landscape. The warning has been issued.

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© Guilherme Lucas

texto e fotos: Guilherme Lucas

O Manipulador é um projeto em formato one man band do músico Manuel Molarinho, mais conhecido como o baixista e vocalista do duo portuense Baleia Baleia Baleia. Confesso que só tomei conhecimento sobre a existência deste Manipulador muito recentemente, aquando da leitura do evento no Facebook para este seu concerto no bar de Campanhã. Numa profunda análise ao que há, dele, nos Youtubes e Bandcamps desta vida, quase que instantaneamente entrei em modo de loop na escuta diária do que ouvi, e vi, sobre ele, não precisando de adiantar muito mais sobre o quanto gostei da sua música. Mais fiquei espantado por constatar que este projeto já existe há 9 anos, ou seja, já algo “veterano” se considerarmos a comparação com a existência ainda algo recente dos Baleia, Baleia, Baleia.

Na escuta atenta dos seus temas no seu Bandcamp ficou-me a forte convicção de um projeto muito interessante e original, com boas canções dentro de uma tipologia pop/rock de forte pendor experimental/eletrónico e algo psicadélico, (há, na realidade, enormes canções, como é o caso óbvio de um I Know), e outros excelentes temas, que não sendo especificamente canções, tem a sua personalidade própria. As suas letras são igualmente boas: curtas e certeiras, qual breve poesia panfletária de sentimentos opostos, completamente rock’n’roll, entre o falhanço, a angústia e a perda no amor, e a esperança de anular tudo isso. Resumindo: gosto de tudo na música deste Manipulador; é tocante para os meus parâmetros.

Este seu concerto do passado sábado serviria para perceber como tudo o que andei a ouvir dele até esse momento, e quase que diariamente, resultaria ao vivo. Ia com a expetativa de ouvir algumas das suas canções que mais me cativaram, mas isso não aconteceu de todo. O concerto foi todo ele realizado num outro conceito, diferente dos seus trabalhos discográficos, mas unicamente no que respeita ao formato de canção. Foi isso sim uma performance de experimentação, tendo obviamente algumas linhas condutoras reconhecíveis na sua discografia, mas que refletiu o improviso em muitas das texturas sonoras que as suas canções possuem. E neste aspeto, o espetáculo foi muito bom e o público presente fazia prova disso, no final de cada um dos seus temas, agradecendo com palmas calorosas.

Há que elogiar a forma inteligente e muito diversificada como Manuel Molarinho realiza a sua música. Não é só o bom-gosto que impera na sua atuação, mas também a sagacidade em conseguir oferecer um melting pot de influências várias ao público, realizando um trabalho muito idiossincrático, coerente e adulto. A forma como “humaniza” muitos dos seus sons digitais que ecoam por via da parafernália de pedais do seu baixo, é marcante.

Manuel Molarinho é um grande músico, daqueles de que se tem de ter em muito boa conta para os próximos anos, dentro do nosso panorama musical, pelo seu óbvio talento. O recado está dado à navegação.

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© Guilherme Lucas

Servo + O Manipulador, Woodstock 69, Porto, 28.06.2019. Part 2 – Servo

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© Guilherme Lucas

words: Guilherme Lucas (freely translated by Raquel Pinheiro); photos Guilherme Lucas

French band SeRvo from Rouen were next. They played for the first time in Portugal at the already unavoidable Woodstock 69. The next day they would play their second, and last Portuguese date, at a festival in Lisboa.

My curiosity and interest in seeing the band live was high because, so far, I like their discography (their latest album in 2016 The Lair Of Gods, a good and interesting LP that deserves a good listening).

SeRvo are a band musically inserted within post-punk, but with a strong psychedelic predominance, being classified in a “modern” way, for the new generations as post-punk/psych. What struck me the most in their songs was their peculiarity in using a vocal aesthetic that is haunted in an undeniable way by the ghost of Ian Curtis or even Robert Smith of The Cure, but which becomes something of its own, projecting the influence in a manner that I classify as Gregorian chant à la Ian Curtis. Something liturgical and deep that works very well, showing new directions within post-punk.

The concert the trio offered the audience was excellent and overwhelming. The typical case of a group that distills a shattering energy live concert that cannot be guessed by its discography. It’s a band that should already have a live record because last Saturday’s concert was  fantastic and memorable. Really good stuff, therefore.

The show was practically performed without stage lighting, with the three musicians remaining in near darkness most of the time, but for some occasional strobes explosions during their themes most intense moments, and colourful lights, such as Christmas tree ornament ones, that covered Arthur Pierre, their guitar player and singer guitar pedals’ box, serving as the only light signalling. That and the projection of a Japanese, or Asian, B-series or so film, where from time to time scenes of violent sex, submissiveness and lust developed. There were times when everything was interconnected, music and projected images, and it all made sense, even if they are not things to be detailed in this no-future review of mine.

When the band ended their performance it was disappointing, because the audience demanded that they carry on with their show a little longer, at least to play an encore, which proves how amazing this show was. It must also be noted that the stage  sound was too good and when that happens in conjugation with a good band, very good things tend to happen.

Afterwards, I informally chatted with the SeRvo replacement bass player (the original bass player was unable to attend the concert in Porto due to to studies and exams commitments, but would perform the next day in Lisboa). Anne-Laure Labaste was very communicative and friendly and left it clear to that it was the first time she played with the band live, although they were all friends and shared positions with her band Bungalow Depression, that I did not knew of, but now I do and like.  Jokingly she told me that the next day she would not play with the band, but that she would be drinking beer with them. By way of a final comment, we talked about Porto’s 10,000 Russos and there was a special glow in her eyes, enthusiastically mentioning that she was a fan of the band and talking about a performance that she watched – somewhere in France, I think, that left her quite impressed.

In a nutshell: SeRvo are great live and highly recommendable. I hope to see them again if they come by.

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© Guilherme Lucas

texto e fotos: Guilherme Lucas

Seguiram-se os franceses SeRvo, da cidade de Rouen, que se apresentaram pela primeira vez ao vivo em Portugal, no já incontornável Woodstock 69. No dia seguinte concluiriam a sua segunda, e última data portuguesa, num festival em Lisboa.

A minha curiosidade e interesse em observar esta banda ao vivo era elevada, pois, gosto da sua discografia até à data (o seu último trabalho de longa duração é de 2016, de nome The Lair Of Gods, um bom e interessante LP merecedor de uma boa escuta).

Os SeRvo são uma banda inserida musicalmente dentro do post-punk, mas com uma forte predominância psicadélica, sendo classificados de forma “moderna”, para as novas gerações, de post-punk/psych. O que mais me chamou a atenção nas suas canções foram a sua peculiaridade em usar uma estética vocal que é assombrada de forma indesmentível pelo fantasma de um Ian Curtis ou até de um Robert Smith dos The Cure, mas que se torna algo original, projetando essa influência num registo que classifico aqui de canto gregoriano à la Ian Curtis. Algo litúrgico e profundo e que resulta muito bem, demonstrando novas direções dentro do post-punk.

O concerto que o trio ofereceu ao público foi simplesmente excelente e avassalador. Este é o típico caso de um grupo que destila uma energia demolidora em concerto que não se adivinha pela sua discografia. É banda que devia ter já um disco ao vivo gravado, pois, neste concerto de sábado passado, foram simplesmente fantásticos e memoráveis. Coisa muito boa, portanto.

Este seu espetáculo foi praticamente realizado sem iluminação de palco, permanecendo os três músicos na quase penumbra na maior parte do tempo, não fossem algumas explosões pontuais de strobs em momentos mais intensos dos seus temas, e umas luzes coloridas, dessas de enfeite para árvores de Natal, que cobriam a caixa de pedais de guitarra do seu guitarrista e vocalista, Arthur Pierre, e que serviram de única sinalização luminosa. Isso e a projeção de um filme japonês, ou asiático, de série B, ou afim, onde de vez em quando se desenrolavam cenas de sexo violento, submissão e luxúria. Momentos houve em que tudo se interligou, música e imagens projetadas, e tudo fez sentido, mesmo que não sejam coisas para ser aqui descritas nesta minha review sem futuro.

Quando a banda deu por finalizada a sua atuação foi uma desilusão, pois, o público presente exigia que prolongassem o seu espetáculo um pouco mais, que fizessem pelo menos um encore, o que prova o quanto magnífico foi este seu espetáculo. Há que salientar também que o som de palco estava bom demais e quando assim é, e se conjuga com uma boa banda, coisas muito boas geralmente ocorrem.

Após o concerto, conversei informalmente com a baixista substituta dos SeRvo (o baixista original não conseguiu marcar presença neste concerto no Porto, devido a compromissos com estudos e exames, mas que já se apresentaria no concerto no dia seguinte em Lisboa). Anne-Laure Labaste, muito comunicativa e simpática, esclareceu-me que foi a primeira vez que tocou com a banda ao vivo, embora sejam todos amigos e partilhem com ela posições na sua banda, os Bungalow Depression, que não conhecia, mas que já estou a conhecer, e a gostar. Algo a brincar, disse-me que no dia seguinte já não tocaria com a banda, mas que estaria com eles para beber as suas cervejas. Em jeito final, ocorreu falar sobre os portuenses 10 000 Russos e fez-se um brilho especial nos seus olhos, referindo entusiasticamente ser fã da banda e sobre uma atuação a que assistiu deles e que a impressionou bastante, algures em França, acho.

Concluíndo: estes SeRvo são fantásticos ao vivo e são altamente recomendáveis. Espero conseguir vê-los novamente se cá voltarem.

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© Guilherme Lucas

Korto, Auditório CCOP, Porto, 30.05.2019

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words: Guilherme Lucas (freely translated by Raquel Pinheiro); photos Guilherme Lucas

Korto, a French power trio from Haute-Savoie, a French area by Switzerland (Mont Blanc and Lake Léman serve as unmistakable geographical references), played last Thursday at Auditório CCOP in Porto.

The French develop into a very interesting musical project, within rock with krautrock, progressive rock, psychedelic made into space-rock as the most obvious sound influences.

Korto have a very energetic way of re-playing those influences, from which the burning energy coming from many of their themes show a post-punk genesis, some indie-pop (1980’s), post-rock ending at afrobeat with an intelligent game of several genres that compete for their sound. For the latter the technical and creative excellence of their drummer, Léo Mo, is essential, which is simply surprising that determines much of the group’s sound. In a nutshell, as one quickly realizes Korto are a very captivating fusion rock band updated to our days.

Currently on the final leg of another European tour and the first time they have played in several Portuguese cities. In a quick browing of their Facebook page tell us that, last month, they were the opening act for the mighty The Young Gods (it makes a lot of sense since their sound has commonalities with the Swiss trio), to their countrymen SLIFT (in this case fitting like a glove), or an improvised project with Thor Harris, a former Swan. That is, Korto are a band that in active growth, on the obvious path of any other group that aims to consolidate their name in the coming years.

Porto’s concert was part of that and the trio offered the audience solid concert good show, mostly based on their first and, so far, only self-titled album from November 2017. By the third song they said that was a new, still unnamed one that was going to be live tested. It was mostly a concert in two tones, between mind-boggling speeding through the Cosmos and a slower mental drifting. The audience always showed appreciation for the themes played and the band always gave back to this communion in energy and commitment.

At the end of the show the band promised that, for now, the concert was over. That they would go for some beers and afterwards may return to the stage. I do not know if it happened. Like most people I didn’t stay much longer. Personally I had the feeling that the end of the show deserved something more convincing from the band. The end wasn’t fully satisfying.

A Final Note: I’ll use this no-future review of mine for some thoughts about Auditório CCOP renewed room. The changes carried out in the old room, from where all the old wooden chairs and the theater stage  were removed, and where all the space was re-shaped into a simple, sober and precise way, is, as I see it, a happy refurbishment. Now there is a luxurious and huge stage to welcome any kind of band or other types of non-musical performances, with an excellent sound and lights system, and the possibility of video recording  the shows. This auditorium is clearly at the level of Hard Club‘s sala 2 and competes with it due to its similarity, and in such regard, offers a privileged space for of any type of public event within its field of activity. It is very good to notice that Porto has one more quality venue opened to the city.

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texto e fotos: Guilherme Lucas

Os KORTO, um power trio francês, oriundo da Alta Sabóia, uma região francesa que faz fronteira com a Suiça (o Monte Branco e o lago Léman servem como referências geográficas incontornáveis), apresentaram-se no Auditório CCOP, Porto, na passada quinta-feira.

Estes três franceses evoluem num projeto musical muito interessante, dentro de uma tipologia rock, onde as influências do krautrock e do rock progressivo e psicadélico, feito space-rock, são as mais evidentes na sua sonoridade.

Os Korto tem uma forma muito enérgica de reinterpretarem estas influências, que pela parte da energia fulminante que extravassa em muitos dos seus temas, revelam génese no post-punk, em algum indie-pop (anos 80), passando pelo post-rock e com término no afrobeat pelo inteligente jogo de múltiplos géneros que concorrem para o seu som. Para esta última parte é fundamental a excelência técnica e criativa do seu baterista, Léo Mo, que é simplesmente surpreendente e que determina muito do som do grupo. Os Korto são resumidamente, e como se percebe rapidamente, um coletivo rock de fusão atualizado para os nossos dias e muito cativante.

Estão presentemente na final de mais uma tour europeia, sendo esta a primeira vez que atuam em várias cidades do território nacional. Numa rápida análise na sua página do Facebook ficamos a saber que foram banda de abertura, no mês passado, para os enormes The Young Gods (o que faz muito sentido, já que a sua sonoridade é comum ao trio suiço), aos seus conterrâneos SLIFT (neste caso particular encaixam como uma luva), ou de um projeto improvisado com Thor Harris, um ex-Swan. Ou seja, os Korto são uma banda que está em crescimento ativo, estando a fazer o percurso óbvio a qualquer outro grupo que pretenda consolidar nos próximos anos o seu nome.

Este concerto no Porto fez parte disso e o trio ofereceu ao público presente um bom e muito sólido concerto, essencialmente baseado no seu primeiro e único álbum até à data, datado de Novembro de 2017, de nome Korto (s/t). Aproveitaram à terceira música para informar que essa era nova e ainda sem nome e que ia ser testada ao vivo. Foi essencialmente um concerto em dois registos, entre velocidades alucinantes pelo Cosmos e outras mais vagarosamente planantes e mentais. O público demonstrou sempre o seu agrado pelo temas interpretados e a banda correspondeu sempre em energia e empenho a essa comunhão.

No final do espetáculo ficou a promessa por parte do grupo de que iam dar por finalizado o seu concerto por ora, iam beber umas cervejas e que depois talvez regressassem a palco. Não sei se isso ocorreu ou não, pois, como eu, quase todo o público não permaneceu muito mais tempo no recinto e desmobilizou. Pessoalmente ficou-me a sensação de que o término do espetáculo merecia algo mais convicto por parte dos franceses; soube-me a pouco esse final, portanto.

Nota final: Aproveito esta minha review sem futuro para tecer algumas considerações sobre o renovado auditório do CCOP. A intervenção efetuada no velho recinto, de onde foram retiradas todas as cadeiras antigas de madeira e o palco de teatro, e onde todo o espaço foi reformulado de uma forma simples, sóbria e precisa, pauta-se, a meu ver, como uma feliz remodelação. Agora existe um palco, luxuoso e enorme para acolher qualquer tipo de banda ou outro tipo de espetáculos que não musicais, com um excelente PA de som e de luzes, e com a possibilidade de gravação dos espetáculos em vídeo. Este auditório está claramente ao nível da sala 2 do Hard Club e concorre desde já com a mesma pela semelhança, e nesse aspeto, oferece um espaço privilegiado para a realização de qualquer tipo de evento público dentro do seu campo de atividade. É muito bom constatar que o Porto tem mais uma sala de espetáculos de qualidade aberta à cidade.

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Little Friend – Time For T, Hard Club, Porto, 05.04.2019.

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Little Friend © Raquel Pinheiro

Little Friend, John Almeida’s brainchild, presented A Substitute For Sadness, their second album, Friday evening at Hard Club. Stripped bare, as they had been presented life up till them, Little Friend’s songs are gentle, little gems. With band- Sílvio Minnemman (drums), Tiago Serôdio (keyboards), Fernando Sousa (bass), – and guests Mimi Sá Coutinho, co-vocals on Somber Song, Sattelite, Curtains and Hypodermic, and guitarist Ed Rocha Gonçalves on Hypodermic the songs gain the beautiful richness and orchestration that can be heard on the album.

It was a lively, captivating show that transmitted with flying colours both the melancholy as well as warmness of Little Friend’s two albums We Will Destroy Each Other A Substitute For Sadness.

The main part of the show ended with the groovy, danceable Too Cool For School followed by a one song encore, Black Sheep from We Will Destroy Each Other.
Opening act timefort (solo) presented a handful of guitar and voice only songs.

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Time For T © Raquel Pinheiro

 

 

 

Sérgio Rocha, Variações Precárias nº 137 para Piano @ Rés-da-rua, Porto, 23.03.2019

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© Raquel Pinheiro

words & photos: Raquel Pinheiro

Sérgio Rocha, Sereias guitar player, used a key-less and pedal-less piano in shambles, but which strings still existed to play his Variações Precárias nº 137 para Piano. The principle is simple, pull and stroke the piano’s strings as well as play them with forks, knives, a slim metal bar, use a glass bottle, add some effects pedals and pre-recorded sounds.

The result is quite surprising, pleasant, even. A one-off improvisation, the piano will be destroyed this week, ranging from louder, so to speak, more industrial sounds, to gentle quasi classical music. Quite an interesting approach and evening.

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© Raquel Pinheiro

 

Príncipe | Cavalheiro, Passos Manuel, Porto, 09.03.2019 – Part 2: Cavalheiro.

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© Guilherme Lucas

words: Guilherme Lucas (freely translated by Raquel Pinheiro); photos Guilherme Lucas

If I went to see Príncipe with some doubts that need to be clarified, with Cavalheiro my position was quite different. The intention was merely to allow myself to be wrapped, without resistance, by his magnificent songs. It was almost always so each time I went to concerts, and the latter, once again at Manuel Passos, was no exception. Sometimes I think I’m the only person in my circle of friends and acquaintances (real and virtual), who really appreciates the great songs of musician Tiago Ferreira. Because, being an assiduous presence in almost all his concerts in Porto since nearly a decade ago … only at times do I identify a known face in the audience that is never big. Strange, or maybe not.
It’s as if Cavalheiro is a closely guarded secret and the world is not aware of it. If that is true, it only makes me like this musical project more, although that is of no use to the musicians.

In last Saturday’s concert, Tiago Ferreira and his companions basically performed the last album, called Falsa Fé, released February 2018. A year went by since its launch, with a third concert in Porto to promote it, in a mission of one concert per semester in the city (February 2018, Passos Manuel and in November 2018 at Casa da Música). The novelty, or added value, resided in the interpretation of a song that was not selected to feature on the album, and that is being used as a career enhancement, while a new album is in the waiting. The song is called Ninguém Me Avisou, and has the curiosity to be a beautiful duet with Xana, Rádio Macau’s singer. I am not much aware of what Tiago Ferreira is achieving with this song, but for what I’ve been reading, here and there, in social and related networks, it’s a song that has generated a lot of interest, both in because of the music as well as the video.

I was not surprised by this show. I mentioned before, maybe has a consequence of having watched others with different formations. There is something already familiar and almost like guessing when Tiago Ferreira’s dedications, loaded with caustic humor between songs (this time the best of all was a pun / analogy between the song Rendez-Vous and the late Zé Pedro and the impossibility of Tiago Ferreira not being able, for now, to accomplish the meeting). Great, and Zé Pedro, I want to believe, was going to have a laugh too. Besides, like the previous ones, it was an excellent concert. This is not a band that excellent sweats their songs. Their league is to play exemplary their classy songs, within great taste and class. A disciplined band, one where each one knows the space and the importance that it has in the different dynamics of each theme, with an exemplary good result, in a sailing rhythm (now it is my turn to make an analogy).

I realized several nuances in his songs, mostly because of two guitars’ game, of textures that remit to shoegaze and some dream-pop. They were probably always there (it the records it does not seem obvious), but, this time around, it was clearer to me. Maybe it was the room acoustics effect and a greater reverberation effect … or not. I really liked it. Everything became more intense and cinematic.

At the end of the concert, under applause, Tiago Ferreira climbed back onto the stage to solo, and touchingly perform the song Fundo do Mar, from the album Ritmo Cruzeiro. It was a moment of pure magic. Already outside I was thinking to myself that I like to watch one-man-band projects more than bands, as even if stripped all the band arrangements Cavalheiro’s song remain pure pop pearls. It’s comforting to realize it.

It was a magnificent night and I got lost in it.

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© Guilherme Lucas

texto e fotos: Guilherme Lucas

Se a Príncipe acorri com algumas dúvidas por esclarecer, com Cavalheiro a minha postura foi bem diferente. A intenção era pura e simplesmente a de deixar-me embalar pelas suas magníficas canções, sem resistir. Quase sempre foi assim de todas as vezes que assisti aos seus concertos, e este último, mais uma vez no Passos Manuel, não fugiu a essa regra. Por vezes acho que sou a única pessoa do meu círculo de amigos e conhecidos (reais e virtuais), que aprecia realmente as grandes canções do músico Tiago Ferreira. Porque, sendo assídua presença em quase todos os concertos que este efetuou na Invicta desde há quase uma década atrás… só identifico por vezes uma ou outra cara conhecida na assistência, que nunca é numerosa. Coisa estranha, ou nem tanto. É como se Cavalheiro fosse um segredo muito bem guardado e o mundo não se desse conta. O que a ser eventualmente verdade, só me faz gostar mais deste projeto musical, embora isso não sirva de nada para os músicos.

Neste concerto de sábado passado, Tiago Ferreira e companheiros interpretaram essencialmente o último álbum, de nome Falsa Fé, de Fevereiro de 2018. Um ano passou sobre o seu lançamento, com este seu terceiro concerto no Porto para o promover, em missão de um concerto por semestre na cidade (em Fevereiro de 2018 no mesmo Passos Manuel e em Novembro na Casa da Música). A novidade, ou o valor acrescentado, residiu na interpretação de um tema que não foi eleito para figurar no álbum, e que está a servir de reforço de carreira, enquanto se aguarda por um próximo trabalho de longa duração. O tema chama-se Ninguém Me Avisou, e tem a curiosidade de ser uma belíssima canção em dueto com a Xana, vocalista dos Rádio Macau. Não tenho muita noção do que está a ser alcançado, através deste tema, para Tiago Ferreira, mas pelo que vou lendo, aqui e ali, nas redes sociais e afins, é canção que tem gerado muito interesse, tanto pela música como pelo seu vídeo-clip.

Não me senti surpreendido com este seu espetáculo, e como referi atrás, talvez já consequência de ter assistido a outros da banda, e com diferentes formações. Há algo que já me resulta familiar e quase como já a adivinhar os momentos das dedicatórias de Tiago Ferreira, carregadas de humor cáustico entre canções (desta vez a melhor de todas foi um trocadilho/analogia entre a canção Rendez-Vous e o falecido Zé Pedro e da impossibilidade de Tiago Ferreira não conseguir, por agora, cumprir esse encontro). Genial, e o Zé Pedro, quero crer, também ia dar uma gargalhada. De resto, este concerto foi excelente, como os anteriores. Esta não é uma banda de suar fisicamente as suas canções. O seu campeonato é o de interpretar exemplarmente as canções de grande categoria, dentro de um enorme bom gosto e classe. Banda disciplinada, onde cada um sabe o espaço e a importância que tem nas diferentes dinâmicas de cada tema, com um resultado exemplarmente bom, em ritmo cruzeiro (agora é a minha vez de fazer uma analogia).

Apercebi-me em várias nuances das suas canções, muito pelo jogo das duas guitarras, texturas que remetem para o shoegaze e alguma dream-pop. Possivelmente sempre lá estiveram (não parece óbvio discograficamente), mas isso resultou mais claro para mim desta vez. Talvez efeito da acústica da sala e de um efeito maior de reverberação… ou não. Gostei bastante. Ficou tudo mais intenso e cinemático.

No final do concerto, e sob bastantes aplausos, Tiago Ferreira subiu de novo ao palco para interpretar, a solo, e de forma tocante, o tema Fundo do Mar, do álbum Ritmo Cruzeiro. Foi um momento de pura magia. Eu que gosto mais de assistir a projetos one-man-band do que bandas, fui a pensar com os meus botões, já no exterior, como afinal as músicas de Cavalheiro continuam a ser puras pérolas pop, mesmo que despidas de todos os seus arranjos com banda. É reconfortante constatar isso.

A noite estava a ser magnífica e perdi-me nela.

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© Guilherme Lucas

Príncipe | Cavalheiro, Passos Manuel, Porto, 09.03.2019 – Part 1: Príncipe.

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© Guilherme Lucas

words: Guilherme Lucas (freely translated by Raquel Pinheiro); photos Guilherme Lucas

Príncipe is musician’s Sebastiao Macedo personal project that he splits with his other band, Ciclo Preparatório. If at first we may be tempted to look for communalities in both projects musical and poetic discourse in Príncipe, that task is immediately solved by listening attentively to his excellent work, summarized in his December 2017 debut album as a singer-songwriter called A Chama e o Carvão .

Príncipe is a musical project of touching, deep beauty that elevates us Above. It is simply delicious and the greatest that Portuguese music has currently to give. A thing that Ciclo Preparatório does not achieve or aims to, maybe because of having a different goal and stance.

Sebastião Macedo is a great multi-instrumentalist with a good voice, both in his compositions and in his lyrics. In such regard he also is a good poet and writer. All his songs, which are huge, condense a whole way of being Portuguese and worldly, in the most melancholy and hopeful fashion we have. The songs have fado and classical music intelligently intertwined with our most popular “troubadour” and ancestral roots folk music, with arrangements and sounds from the most global modern indie-pop. It is amazing to realize that Príncipe’s first album in an adult one for eternity, in the sense of striking perfection. The reason being Sebastião Macedo has his very own musical and singing style, already stylistically defined, which allows him to be differentiated from his other peers others who may be within the same typology.

It has been some time I had wanted to see Príncipe; I wanted to check whether my suspicions were right or whether I was being overly enthusiastic about his music solely based on listening to his recorded work. The opportunity presented last Saturday. Príncipe’s concert not only confirmed what I already thought of him and of his music, but also reinforced my opinion that there is something very precious in him to already take him very seriously. His performance was very good and settled on the irreprehensible interpretation of his album. It was a careful performance in good taste, where everything was perfect between very committed and attentive musicians. However, there was a moment for which this old punk rocker, who signs these no-future reviews, was not warned and prepared for. The interpretation of the theme Luz Cessar-Fogo was the most glorious and luminous moment of the whole concert; something that overwhelmed me completely and made me shiver like a fool. It was music doing its redeeming miracles. He had no right, it was not right and I will never forget it!

This Príncipe [Prince] is already a King, and I urge the gods to make him a deserving Emperor in the future.

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© Guilherme Lucas

texto e fotos: Guilherme Lucas

Príncipe é o projeto pessoal do músico Sebastiao Macedo, que o reparte com a sua outra banda, Ciclo Preparatório. Se à partida podemos ser tentados a procurar aspetos comuns aos dois projetos no discurso musical e poético deste Príncipe, essa é tarefa que fica imediatamente resolvida, na escuta atenta do seu excelente trabalho, resumido no seu álbum de estreia de Dezembro de 2017, de nome A Chama e o Carvão, enquanto cantautor.

Príncipe é um projeto musical de uma beleza tocante, profunda e que nos eleva ao Éter. É simplesmente delicioso e do mais grandioso que a música portuguesa tem para nos dar por estes dias. Algo que Ciclo Preparatório não consegue ou ambiciona, talvez por ter objetivo e postura diferente.

Sebastião Macedo é um grande músico multi-instrumentista com uma boa voz, tanto nas suas composições como nas suas letras. É, nesse sentido, também um bom poeta e escritor. Todas as suas canções, que são enormes, condensam toda uma forma de ser português e do mundo, no que de mais melancólico e esperançoso temos. Há nelas fado e música clássica entrecruzada inteligentemente com a nossa música popular de raiz mais “trovadoresca” e ancestral, com arranjos e sons da mais moderna indie-pop global. Espanta constatar que este Príncipe tem no seu primeiro trabalho um álbum adulto e para a eternidade, no sentido de raiar a perfeição. Isso ocorre porque Sebastião Macedo tem um estilo musical e de canto muito próprio e já definido estilisticamente, que o permite diferenciar de outros seus pares que também possam estar dentro da mesma tipologia.

Desejava ver este Príncipe ao vivo há já algum tempo; queria confirmar se as minhas suspeitas estavam certas ou se estava a ser demasiadamente entusiástico com a sua música baseada apenas na escuta do seu trabalho discográfico. Essa oportunidade ocorreu no sábado passado. O concerto de Príncipe não só confirmou o que já pensava dele e da sua música, como reforçou ainda mais a minha opinião de que há nele algo muito precioso para o levar muito a sério desde já. O seu espetáculo foi muito bom e assentou na interpretação irrepreensível do seu álbum. Foi uma atuação cuidadosa e de bom-gosto, onde tudo esteve perfeito entre músicos muito empenhados e atentos. Mas houve um momento para o qual este velho punk rocker, que assina estas reviews sem futuro, não ia de todo avisado e preparado. A interpretação do tema Luz Cessar-Fogo foi o momento mais glorioso e luminoso de todo o concerto; algo que me arrebatou completamente e me fez arrepiar como um idiota. Foi a música a fazer os seus milagres redentores. Não há direito, não se faz e jamais o esquecerei!

Este Príncipe é já um Rei, e peço encarecidamente aos deuses, que no futuro, venha a ser um merecido Imperador.

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© Guilherme Lucas

Holy Motors + Balter Youth, Hard Club, Porto, 09.01.2019 – Part 2 – Holy Motors

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Holy Motors + Balmer Youth, Hard Club, Porto, 09.01.2019 – Part 2

 

words: Guilherme Lucas (freely translated by Raquel Pinheiro); photos Guilherme Lucas

Holy Motors (name taken from French director Leos Carax s  enigmatic and bewildering  2012 film) played their first ever Portuguese concert in Hard Club’s Sala 2 and today they facet their second, and last Portuguese gig in Lisboa.

The Estonians, from Tallinn have been touring Europe for the first time to present their debut album, Slow Sundown, that was releases almost a year ago in February 2018. It is a beautiful album with eight superb songs that deserve a careful and long listening.

Holy Motors are a band that offers us pure magic in all its wonder, through deeply cinematic and seductive musical and thematic discourse. They’re a slow speed group, like a hypnotic, misty dream, in which we wander aimlessly, as we’re fleeing terrified of something that haunts us with sinister intentions. All their music is punctuated with sublime details that compete passionately for the exaltation of our innermost emotions, managing to move and transport us to the deepest melancholy and absolutely dark beauty. They are, in their very own way, psychedelic in the cryptic suspense that their sonic textures convey to us.

The quintet is musically inserted into shoegaze, with residual post-punk derivations (although in a remarkably indie-pop posture, very much through a quite identifiable formula with some of the biggest names that have signed the best music of the last few decades. Holy Motors’ guitar sounds have the seminal ghosts of the genial Rowland S. Howard (though in a more contained and much less inflammatory way) or the brilliant James Wilsey in what refers to the more surf and dream pop landscapes of their songs. One can also see that revisited musical aesthetic, by the a la Morricone or David Lynch ambient in the darker and denser ambiences of their music. One side more Tarantino, in its more country-western fashion and obscure “flamenco”, and an entire lineage that, among others, goes from My Bloody Valentine to Cocteau Twins or Slowdive that fit the same purposes. Finally, there is always the omnipresence of Mazzy Star, Hope Sandoval or even Cowboy Junkies in Elian Tulve, Holy Motors’ lead singer mournful singing style of the purest and sweetest abandon.

Not being an original band in their musical and aesthetic purposes, Holy Motors aren’t less interesting because of it. Their field of action is completely imbued with mystery and dream, and, therefore, very intense. Revisiting what others – a few – have done in a pioneering way, reinventing and revitalizing an entire discourse that is send back to us in a sure and quite convincing way. We liked Holy Motors because we like the main sources where they drank from to compose their songs.

Personally, there was a greater momentum in their all performance: when they played the fabulous Sleeprydr in their breathtaking final solo. It was worthy the whole concert   because it brilliantly summarizes all the above-mentioned influences and on its own defines what is, in large part, shoegaze. Unforgettable!

Finally, I found the Estonian band concert unquestionably good, though more lukewarm than exhilarating. Good musicians, an excellent voice and a static and focused in the execution of their music stage stance. And fantastic songs that are what saves our days and nights. All in all, no small feature.

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texto e fotos: Guilherme Lucas

Holy Motors – Os Holy Motors (nome retirado ao enigmático e desconcertante filme de 2012, do realizador francês Leos Carax), realizaram o seu primeiro concerto de sempre em território nacional, na sala 2 do Hard Club, sendo que hoje cumprem a sua segunda, e última data lusa, em Lisboa.

Estes estonianos, de Tallin, andam até meados deste mês em tour pela Europa para apresentar o seu primeiro álbum de originais, de nome Slow Sundown e que já conta com quase um ano de existência desde que foi editado em Fevereiro de 2018. De resto, um belíssimo álbum com oito soberbas canções que merece uma escuta cuidadosa e demorada.

Os Holy Motors são uma banda que nos oferece pura magia em toda a sua plenitude, através de um discurso musical e temático que é profundamente cinemático e sedutor. É grupo de velocidade lenta, como num sonho hipnótico, enevoado, em que deambulamos sem rumo, como que a fugir aterrorizados por algo que nos persegue com objetivos sinistros. Toda a sua música é pontuada de pormenores sublimes que concorrem de forma apaixonada para a exaltação das nossas emoções mais recônditas, conseguindo emocionar-nos e transportar-nos para paragens da mais profunda beleza melancólica e absolutamente noir. São, de uma maneira muito própria, psicadélicos no suspense enigmático que as suas texturas sonoras nos transmitem.

O quinteto está musicalmente inserido dentro do shoegaze, com derivações residuais de algum post-punk, numa postura marcadamente indie-pop e muito por via de uma fórmula que é bastante identificável com alguns nomes maiores que assinaram a melhor música das últimas décadas. Há na sonoridade das guitarras destes Holy Motors os fantasmas seminais de um genial Rowland S. Howard (embora numa postura mais contida e bem menos incendiária) ou de um brilhante James Wilsey naquilo que remete para as paragens mais surf e dream pop das suas canções. Percebe-se também essa estética musical revisitada, pelos ambientes à la Morricone ou à la David Lynch nas ambiências mais obscuras e densas da sua música, um lado mais Tarantino, na sua vertente mais country-western e de “flamengo” obscuro, de toda uma escola que vai desde os My Bloody Valentine até aos Cocteau Twins ou Slowdive, entre outros, que se inserem nos mesmos propósitos. Finalmente há sempre a pairar a omnipresença de uns Mazzy Star, de uma Hope Sandoval ou até de uns Cowboy Junkies no estilo de canto dolente, do mais puro e doce abandono, de Elian Tulve, vocalista destes Holy Motors.

Não sendo uma banda original nos seus propósitos musicais e estéticos, estes Holy Motors não deixam de ser por isso menos interessantes. Porque o seu campo de ação é completamente imbuído de mistério e sonho, e muito intenso por isso. Revisitando o que outros – poucos – fizeram de forma pioneira, reinventam e revitalizam todo um discurso que nos é devolvido de forma convicta e bastante convincente. Gostamos destes Holy Motors porque gostamos das fontes iniciais a que eles foram beber para compor as suas canções.

Pessoalmente, existiu um momento maior em relação a todo o seu espetáculo quando interpretaram o fabuloso tema Sleeprydr no seu solo final, que foi de cortar a respiração. Valeu por todo o concerto porque condensa genialmente todas as influências atrás citadas e que por si só define o que é, em grande parte, o shoegaze. Inesquecível!

Finalizando, achei inquestionavelmente bom o concerto destes estonianos, embora mais para o morno do que para o entusiasmante. Bons músicos, uma excelente voz e uma postura em palco estática e muito compenetrada na execução da sua música. E canções fantásticas, que são o que nos salva os dias e as noites. É por aí, e já não é pouco.

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Holy Motors + Balter Youth, Hard Club, Porto, 09.01.2019 – Part 1 – Balmer Youth

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words: Guilherme Lucas (freely translated by Raquel Pinheiro); photos: Guilherme Lucas

Porto’s young sextet Balter Youth were selected as Estonian band Holy Motors support act on their first Portuguese concert at Hard Club.

Generally speaking Balter Youth create independent pop, or indie-pop to express ourselves more universally. It is only fair to say in this brief assessment that they do it very well. Their music if of the purest pop filigree, highly crystalline and subtle, pleasantly light as a fragrance.

Essentially, Balter Youth offered us are some good, well-crafted, pop songs. Of the sort which choruses are left in our ears after hearing them a few times. The type that can easily aim to airplay on any radio or network show, if that still has meaning these days. Just to state their universality and how easy it is to absorb their music, without complexes or major difficulties.

A plus the band shows, after carefully listening to their works on their Youtube channel and Soundcloud is that their songs are not of easy and obvious comparison with major and historical bands of universal reference. One recognizes some of them in their sound, but not in a very categorical or stylistic way, more as a faint suggestion, not so much as evidence. Therefore, there is an unpretentious ingenuity by its members that reveals itself in a sincere and carefree manner throughout their themes.

Upon a stage Balter Youth showed they had a very solid and capable project for whatever lies ahead. As they have good songs in a pop-teen style, but above all because their singer Inês Pinto da Costa has an excellent voice to sing their compositions, which in pop affairs is vital to go places. They appear to be a group in which all their forefronts and sides seem to be well protected and ready to achieve an ever greater public recognition, if there is ability – and some luck – for the group to grow with more shows in their resume, which will inevitably propel their songs to a wider audience. I liked them … they are good.

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texto e fotos: Guilherme Lucas

Abriram a noite de quarta-feira passada, os portuenses Balter Youth, jovem sexteto eleito para banda suporte aos estonianos Holy Motors, neste seu primeiro concerto nacional no Hard Club.

Os Balter Youth fazem genericamente pop de cariz independente, ou indie-pop para nos expressarmos de forma mais universal. E fazem-no muito bem de resto, para que se faça a devida justiça nesta breve apreciação. A sua música é da mais pura filigrana pop, muito cristalina e subtil, agradavelmente leve como uma fragrância.

São essencialmente algumas boas, e muito bem trabalhadas, canções pop aquilo que estes Balter Youth nos oferecem. Das que tem refrões que nos ficam no ouvido ao final de poucas audições. Das que podem ambicionar airplay sem problema algum, em qualquer rádio ou programa televisivo, se é que isso ainda signifique algo nos dias de hoje. Apenas para vincar a universalidade e a facilidade de absorver a sua música, sem complexos ou dificuldades de maior.

Uma mais-valia que o coletivo revela, numa escuta atenta aos seus trabalhos disponíveis no seu canal Youtube e Soundcloud, é que as suas canções não são de fácil e óbvia comparação com bandas maiores e históricas e de referência universal. Reconhecemos no seu som algumas delas, mas não de uma forma muito taxativa ou estilística, mas mais como uma ténue sugestão e não tanto como uma evidência. Há por isso um despretensioso engenho por parte dos seus elementos que se revela de forma sincera e despreocupada ao longo dos seus temas.

Os Balter Youth mostraram em palco ter um projeto muito sólido e capaz para o que há-de vir e tiver de ser. Porque possuem boas canções num estilo pop-adolescente, mas acima de tudo, porque também tem na sua vocalista Inês Pinto da Costa uma excelente voz a assinar as suas composições, o que nestas coisas da pop é vital para se conseguir ir a algum lado. Aparentam ser grupo em que todas as suas frentes e laterais parecem estar bem protegidas e prontas para alcançar um cada vez maior reconhecimento público, haja capacidade – e alguma sorte – para o grupo conseguir crescer com mais espetáculos no seu currículo, que inevitavelmente propagarão as suas canções a uma audiência mais vasta. Gostei deles… são bons.

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Ghost Hunt, Café-Casa da Música, Porto, 26.12.2018

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words: Guilherme Lucas (freely translated by Raquel Pinheiro); photos Guilherme Lucas

Coimbra’s duo Ghost Hunt played last Wednesday at Café Casa da Música, Porto. The electronic music group are Pedro Oliveira keyboards and programming) and Pedro Chau (bass, vocals – already well-known within the Portuguese music scene for his career between no longer existing Tédio Boys and 77, currently in The Parkinsons and Subway Riders).
The most relevant thing to say about Ghost Hunt’s concert is that they are a serious band, very professional in the way they play music. They’re very good within their genre. Live, they so it all in a very cohesive and enlightened way. There is a well-thought-out and fluid project, straightforward, where themes roll in a logical and natural fashion, providing a show without less interesting or dead moments for those who see them live. I want to believe that in a one hour show they managed to large the audience that attended the concert – Café Casa da Música’s ample space was nearly full. The applause at the end of each theme proved such delight.
Broadly speaking Ghost Hunt play fresh, current electronic music, but there is an aspect or a way of playing it that derives from a past rock’n’roll culture. Perhaps it is that factor that makes it so organic and “human”. But it is not just that detail that helps such perception. The duo manages to make a very clever mix of stylistic genres ranging from krautrock to space-rock, to synth-pop-rock to darkwave, new-wave and post-punk. In Ghost Hunt’s music can be heard sonorities suggested by Kraftwerk or Tangerine Dream, but also Gary Numan, Orchestral Maneuvers in the Dark or New Order, the list being very long and diverse, as it results from a mixture of decades – and different bands and artists – that contribute as references to duo ‘s sound. This to also mention that is in their music, which is essentially very melodic and captivatingly pop with some experimentation, although very objective, punctual and short length. I will say the group’s themes share a great intimate ambient beauty, mixed with blinding sidereal explosions, with vertiginous psychedelic speeds through space, at times cold and mechanical, at times hot and melodically grandiose. There is a dark and obscure side to their themes as well as melancholic beauty that elevates towards something hopeful and liberating.
As a conclusion I will say that Ghost Hunt are a very interesting band quite of being carefully listened to. This project ennobles the current Portuguese music scene. They are one of those bands that make us proud, regardless of our liking or disliking of electronic music and so.

 

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texto e fotos: Guilherme Lucas

O duo coimbrense Ghost Hunt atuou, na passada quarta-feira, no espaço do Café Casa da Música, no Porto. Este grupo de música eletrónica é composto por Pedro Oliveira, na parte dos teclados e programações, e Pedro Chau no baixo e vocalizações (este último já é por demais conhecido dentro do panorama musical nacional, devido à sua carreira musical, repartida entre os extintos Tédio Boys e 77 e presentemente nos The Parkinsons e nos Subway Riders).
O que há a dizer de mais relevante deste seu concerto é que os Ghost Hunt são uma banda feita, séria, muito profissional na entrega à interpretação da sua música, sendo muito bons dentro da sua tipologia musical. Demonstraram precisamente tudo isto ao vivo, de uma forma muito coesa e esclarecida. Há um projeto muito bem pensado e fluído, sem espinhas, onde os seus temas sucedem-se de forma lógica e natural, proporcionando um espetáculo sem pontos mortos, ou menos interessantes, para quem assiste a um seu concerto. Em uma hora de espetáculo conseguiram, quero crer, cativar todo o numeroso público que afluiu ao concerto, e que encheu praticamente o amplo espaço do Café Casa da Música. As muitas palmas, nos finais de cada tema, eram prova desse agrado.
Os Ghost Hunt fazem genericamente música eletrónica, fresca e atual, dos nossos dias, mas há uma vertente, ou uma forma de a interpretar que deriva de toda uma cultura rock’n’roll que está no passado. É talvez esse fator que a faz ser tão orgânica e “humana”. Mas não é só esse pormenor que concorre para essa perceção. O duo consegue fazer uma muito acertada e despudorada mistura de géneros estilísticos que vão desde o krautrock ao space-rock, ao synth-pop-rock, à darkwave, new-wave e post-punk. Ouvimos na música dos Ghost Hunt sonoridades que nos sugerem os Kraftwerk ou os Tangerine Dream, mas também Gary Numan, Orchestral Manoeuvres in the Dark ou New Order sendo que a lista é muito extensa e diversa, pois resulta de uma mistura de décadas – e de diferentes bandas e artistas – que contribuem como referências para o som deste duo. Isto para referir também que se encontra na sua música, que essencialmente é muito melódica e cativantemente pop, alguma experimentação, embora de forma muito objetiva, pontual e de curta duração. Direi que os temas do grupo comungam de uma enorme beleza ambiental, intimista, misturada com fulminantes explosões siderais, de velocidades psicadélicas vertiginosas pelo Espaço, ora gélidas e maquinais, ora quentes e melodicamente grandiosas. Há um lado negro e obscuro nos seus temas mas também uma beleza melancólica que nos eleva para algo esperançoso e libertador.
Direi, em jeito de conclusão, que estes Ghost Hunt são uma banda deveras interessante e muito merecedores de uma escuta atenta. Engrandecem, com este seu projeto, o atual panorama musical nacional. De tal forma, que são daquelas que nos dão orgulho, mesmo que se goste, ou não, de música eletrónica e afins.

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