Little Friend – Time For T, Hard Club, Porto, 05.04.2019.

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Little Friend © Raquel Pinheiro

Little Friend, John Almeida’s brainchild, presented A Substitute For Sadness, their second album, Friday evening at Hard Club. Stripped bare, as they had been presented life up till them, Little Friend’s songs are gentle, little gems. With band- Sílvio Minnemman (drums), Tiago Serôdio (keyboards), Fernando Sousa (bass), – and guests Mimi Sá Coutinho, co-vocals on Somber Song, Sattelite, Curtains and Hypodermic, and guitarist Ed Rocha Gonçalves on Hypodermic the songs gain the beautiful richness and orchestration that can be heard on the album.

It was a lively, captivating show that transmitted with flying colours both the melancholy as well as warmness of Little Friend’s two albums We Will Destroy Each Other A Substitute For Sadness.

The main part of the show ended with the groovy, danceable Too Cool For School followed by a one song encore, Black Sheep from We Will Destroy Each Other.
Opening act timefort (solo) presented a handful of guitar and voice only songs.

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Time For T © Raquel Pinheiro

 

 

 

Sérgio Rocha, Variações Precárias nº 137 para Piano @ Rés-da-rua, Porto, 23.03.2019

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© Raquel Pinheiro

words & photos: Raquel Pinheiro

Sérgio Rocha, Sereias guitar player, used a key-less and pedal-less piano in shambles, but which strings still existed to play his Variações Precárias nº 137 para Piano. The principle is simple, pull and stroke the piano’s strings as well as play them with forks, knives, a slim metal bar, use a glass bottle, add some effects pedals and pre-recorded sounds.

The result is quite surprising, pleasant, even. A one-off improvisation, the piano will be destroyed this week, ranging from louder, so to speak, more industrial sounds, to gentle quasi classical music. Quite an interesting approach and evening.

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© Raquel Pinheiro

 

Príncipe | Cavalheiro, Passos Manuel, Porto, 09.03.2019 – Part 2: Cavalheiro.

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© Guilherme Lucas

words: Guilherme Lucas (freely translated by Raquel Pinheiro); photos Guilherme Lucas

If I went to see Príncipe with some doubts that need to be clarified, with Cavalheiro my position was quite different. The intention was merely to allow myself to be wrapped, without resistance, by his magnificent songs. It was almost always so each time I went to concerts, and the latter, once again at Manuel Passos, was no exception. Sometimes I think I’m the only person in my circle of friends and acquaintances (real and virtual), who really appreciates the great songs of musician Tiago Ferreira. Because, being an assiduous presence in almost all his concerts in Porto since nearly a decade ago … only at times do I identify a known face in the audience that is never big. Strange, or maybe not.
It’s as if Cavalheiro is a closely guarded secret and the world is not aware of it. If that is true, it only makes me like this musical project more, although that is of no use to the musicians.

In last Saturday’s concert, Tiago Ferreira and his companions basically performed the last album, called Falsa Fé, released February 2018. A year went by since its launch, with a third concert in Porto to promote it, in a mission of one concert per semester in the city (February 2018, Passos Manuel and in November 2018 at Casa da Música). The novelty, or added value, resided in the interpretation of a song that was not selected to feature on the album, and that is being used as a career enhancement, while a new album is in the waiting. The song is called Ninguém Me Avisou, and has the curiosity to be a beautiful duet with Xana, Rádio Macau’s singer. I am not much aware of what Tiago Ferreira is achieving with this song, but for what I’ve been reading, here and there, in social and related networks, it’s a song that has generated a lot of interest, both in because of the music as well as the video.

I was not surprised by this show. I mentioned before, maybe has a consequence of having watched others with different formations. There is something already familiar and almost like guessing when Tiago Ferreira’s dedications, loaded with caustic humor between songs (this time the best of all was a pun / analogy between the song Rendez-Vous and the late Zé Pedro and the impossibility of Tiago Ferreira not being able, for now, to accomplish the meeting). Great, and Zé Pedro, I want to believe, was going to have a laugh too. Besides, like the previous ones, it was an excellent concert. This is not a band that excellent sweats their songs. Their league is to play exemplary their classy songs, within great taste and class. A disciplined band, one where each one knows the space and the importance that it has in the different dynamics of each theme, with an exemplary good result, in a sailing rhythm (now it is my turn to make an analogy).

I realized several nuances in his songs, mostly because of two guitars’ game, of textures that remit to shoegaze and some dream-pop. They were probably always there (it the records it does not seem obvious), but, this time around, it was clearer to me. Maybe it was the room acoustics effect and a greater reverberation effect … or not. I really liked it. Everything became more intense and cinematic.

At the end of the concert, under applause, Tiago Ferreira climbed back onto the stage to solo, and touchingly perform the song Fundo do Mar, from the album Ritmo Cruzeiro. It was a moment of pure magic. Already outside I was thinking to myself that I like to watch one-man-band projects more than bands, as even if stripped all the band arrangements Cavalheiro’s song remain pure pop pearls. It’s comforting to realize it.

It was a magnificent night and I got lost in it.

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© Guilherme Lucas

texto e fotos: Guilherme Lucas

Se a Príncipe acorri com algumas dúvidas por esclarecer, com Cavalheiro a minha postura foi bem diferente. A intenção era pura e simplesmente a de deixar-me embalar pelas suas magníficas canções, sem resistir. Quase sempre foi assim de todas as vezes que assisti aos seus concertos, e este último, mais uma vez no Passos Manuel, não fugiu a essa regra. Por vezes acho que sou a única pessoa do meu círculo de amigos e conhecidos (reais e virtuais), que aprecia realmente as grandes canções do músico Tiago Ferreira. Porque, sendo assídua presença em quase todos os concertos que este efetuou na Invicta desde há quase uma década atrás… só identifico por vezes uma ou outra cara conhecida na assistência, que nunca é numerosa. Coisa estranha, ou nem tanto. É como se Cavalheiro fosse um segredo muito bem guardado e o mundo não se desse conta. O que a ser eventualmente verdade, só me faz gostar mais deste projeto musical, embora isso não sirva de nada para os músicos.

Neste concerto de sábado passado, Tiago Ferreira e companheiros interpretaram essencialmente o último álbum, de nome Falsa Fé, de Fevereiro de 2018. Um ano passou sobre o seu lançamento, com este seu terceiro concerto no Porto para o promover, em missão de um concerto por semestre na cidade (em Fevereiro de 2018 no mesmo Passos Manuel e em Novembro na Casa da Música). A novidade, ou o valor acrescentado, residiu na interpretação de um tema que não foi eleito para figurar no álbum, e que está a servir de reforço de carreira, enquanto se aguarda por um próximo trabalho de longa duração. O tema chama-se Ninguém Me Avisou, e tem a curiosidade de ser uma belíssima canção em dueto com a Xana, vocalista dos Rádio Macau. Não tenho muita noção do que está a ser alcançado, através deste tema, para Tiago Ferreira, mas pelo que vou lendo, aqui e ali, nas redes sociais e afins, é canção que tem gerado muito interesse, tanto pela música como pelo seu vídeo-clip.

Não me senti surpreendido com este seu espetáculo, e como referi atrás, talvez já consequência de ter assistido a outros da banda, e com diferentes formações. Há algo que já me resulta familiar e quase como já a adivinhar os momentos das dedicatórias de Tiago Ferreira, carregadas de humor cáustico entre canções (desta vez a melhor de todas foi um trocadilho/analogia entre a canção Rendez-Vous e o falecido Zé Pedro e da impossibilidade de Tiago Ferreira não conseguir, por agora, cumprir esse encontro). Genial, e o Zé Pedro, quero crer, também ia dar uma gargalhada. De resto, este concerto foi excelente, como os anteriores. Esta não é uma banda de suar fisicamente as suas canções. O seu campeonato é o de interpretar exemplarmente as canções de grande categoria, dentro de um enorme bom gosto e classe. Banda disciplinada, onde cada um sabe o espaço e a importância que tem nas diferentes dinâmicas de cada tema, com um resultado exemplarmente bom, em ritmo cruzeiro (agora é a minha vez de fazer uma analogia).

Apercebi-me em várias nuances das suas canções, muito pelo jogo das duas guitarras, texturas que remetem para o shoegaze e alguma dream-pop. Possivelmente sempre lá estiveram (não parece óbvio discograficamente), mas isso resultou mais claro para mim desta vez. Talvez efeito da acústica da sala e de um efeito maior de reverberação… ou não. Gostei bastante. Ficou tudo mais intenso e cinemático.

No final do concerto, e sob bastantes aplausos, Tiago Ferreira subiu de novo ao palco para interpretar, a solo, e de forma tocante, o tema Fundo do Mar, do álbum Ritmo Cruzeiro. Foi um momento de pura magia. Eu que gosto mais de assistir a projetos one-man-band do que bandas, fui a pensar com os meus botões, já no exterior, como afinal as músicas de Cavalheiro continuam a ser puras pérolas pop, mesmo que despidas de todos os seus arranjos com banda. É reconfortante constatar isso.

A noite estava a ser magnífica e perdi-me nela.

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© Guilherme Lucas

Príncipe | Cavalheiro, Passos Manuel, Porto, 09.03.2019 – Part 1: Príncipe.

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© Guilherme Lucas

words: Guilherme Lucas (freely translated by Raquel Pinheiro); photos Guilherme Lucas

Príncipe is musician’s Sebastiao Macedo personal project that he splits with his other band, Ciclo Preparatório. If at first we may be tempted to look for communalities in both projects musical and poetic discourse in Príncipe, that task is immediately solved by listening attentively to his excellent work, summarized in his December 2017 debut album as a singer-songwriter called A Chama e o Carvão .

Príncipe is a musical project of touching, deep beauty that elevates us Above. It is simply delicious and the greatest that Portuguese music has currently to give. A thing that Ciclo Preparatório does not achieve or aims to, maybe because of having a different goal and stance.

Sebastião Macedo is a great multi-instrumentalist with a good voice, both in his compositions and in his lyrics. In such regard he also is a good poet and writer. All his songs, which are huge, condense a whole way of being Portuguese and worldly, in the most melancholy and hopeful fashion we have. The songs have fado and classical music intelligently intertwined with our most popular “troubadour” and ancestral roots folk music, with arrangements and sounds from the most global modern indie-pop. It is amazing to realize that Príncipe’s first album in an adult one for eternity, in the sense of striking perfection. The reason being Sebastião Macedo has his very own musical and singing style, already stylistically defined, which allows him to be differentiated from his other peers others who may be within the same typology.

It has been some time I had wanted to see Príncipe; I wanted to check whether my suspicions were right or whether I was being overly enthusiastic about his music solely based on listening to his recorded work. The opportunity presented last Saturday. Príncipe’s concert not only confirmed what I already thought of him and of his music, but also reinforced my opinion that there is something very precious in him to already take him very seriously. His performance was very good and settled on the irreprehensible interpretation of his album. It was a careful performance in good taste, where everything was perfect between very committed and attentive musicians. However, there was a moment for which this old punk rocker, who signs these no-future reviews, was not warned and prepared for. The interpretation of the theme Luz Cessar-Fogo was the most glorious and luminous moment of the whole concert; something that overwhelmed me completely and made me shiver like a fool. It was music doing its redeeming miracles. He had no right, it was not right and I will never forget it!

This Príncipe [Prince] is already a King, and I urge the gods to make him a deserving Emperor in the future.

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© Guilherme Lucas

texto e fotos: Guilherme Lucas

Príncipe é o projeto pessoal do músico Sebastiao Macedo, que o reparte com a sua outra banda, Ciclo Preparatório. Se à partida podemos ser tentados a procurar aspetos comuns aos dois projetos no discurso musical e poético deste Príncipe, essa é tarefa que fica imediatamente resolvida, na escuta atenta do seu excelente trabalho, resumido no seu álbum de estreia de Dezembro de 2017, de nome A Chama e o Carvão, enquanto cantautor.

Príncipe é um projeto musical de uma beleza tocante, profunda e que nos eleva ao Éter. É simplesmente delicioso e do mais grandioso que a música portuguesa tem para nos dar por estes dias. Algo que Ciclo Preparatório não consegue ou ambiciona, talvez por ter objetivo e postura diferente.

Sebastião Macedo é um grande músico multi-instrumentista com uma boa voz, tanto nas suas composições como nas suas letras. É, nesse sentido, também um bom poeta e escritor. Todas as suas canções, que são enormes, condensam toda uma forma de ser português e do mundo, no que de mais melancólico e esperançoso temos. Há nelas fado e música clássica entrecruzada inteligentemente com a nossa música popular de raiz mais “trovadoresca” e ancestral, com arranjos e sons da mais moderna indie-pop global. Espanta constatar que este Príncipe tem no seu primeiro trabalho um álbum adulto e para a eternidade, no sentido de raiar a perfeição. Isso ocorre porque Sebastião Macedo tem um estilo musical e de canto muito próprio e já definido estilisticamente, que o permite diferenciar de outros seus pares que também possam estar dentro da mesma tipologia.

Desejava ver este Príncipe ao vivo há já algum tempo; queria confirmar se as minhas suspeitas estavam certas ou se estava a ser demasiadamente entusiástico com a sua música baseada apenas na escuta do seu trabalho discográfico. Essa oportunidade ocorreu no sábado passado. O concerto de Príncipe não só confirmou o que já pensava dele e da sua música, como reforçou ainda mais a minha opinião de que há nele algo muito precioso para o levar muito a sério desde já. O seu espetáculo foi muito bom e assentou na interpretação irrepreensível do seu álbum. Foi uma atuação cuidadosa e de bom-gosto, onde tudo esteve perfeito entre músicos muito empenhados e atentos. Mas houve um momento para o qual este velho punk rocker, que assina estas reviews sem futuro, não ia de todo avisado e preparado. A interpretação do tema Luz Cessar-Fogo foi o momento mais glorioso e luminoso de todo o concerto; algo que me arrebatou completamente e me fez arrepiar como um idiota. Foi a música a fazer os seus milagres redentores. Não há direito, não se faz e jamais o esquecerei!

Este Príncipe é já um Rei, e peço encarecidamente aos deuses, que no futuro, venha a ser um merecido Imperador.

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© Guilherme Lucas

Holy Motors + Balter Youth, Hard Club, Porto, 09.01.2019 – Part 2 – Holy Motors

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Holy Motors + Balmer Youth, Hard Club, Porto, 09.01.2019 – Part 2

 

words: Guilherme Lucas (freely translated by Raquel Pinheiro); photos Guilherme Lucas

Holy Motors (name taken from French director Leos Carax s  enigmatic and bewildering  2012 film) played their first ever Portuguese concert in Hard Club’s Sala 2 and today they facet their second, and last Portuguese gig in Lisboa.

The Estonians, from Tallinn have been touring Europe for the first time to present their debut album, Slow Sundown, that was releases almost a year ago in February 2018. It is a beautiful album with eight superb songs that deserve a careful and long listening.

Holy Motors are a band that offers us pure magic in all its wonder, through deeply cinematic and seductive musical and thematic discourse. They’re a slow speed group, like a hypnotic, misty dream, in which we wander aimlessly, as we’re fleeing terrified of something that haunts us with sinister intentions. All their music is punctuated with sublime details that compete passionately for the exaltation of our innermost emotions, managing to move and transport us to the deepest melancholy and absolutely dark beauty. They are, in their very own way, psychedelic in the cryptic suspense that their sonic textures convey to us.

The quintet is musically inserted into shoegaze, with residual post-punk derivations (although in a remarkably indie-pop posture, very much through a quite identifiable formula with some of the biggest names that have signed the best music of the last few decades. Holy Motors’ guitar sounds have the seminal ghosts of the genial Rowland S. Howard (though in a more contained and much less inflammatory way) or the brilliant James Wilsey in what refers to the more surf and dream pop landscapes of their songs. One can also see that revisited musical aesthetic, by the a la Morricone or David Lynch ambient in the darker and denser ambiences of their music. One side more Tarantino, in its more country-western fashion and obscure “flamenco”, and an entire lineage that, among others, goes from My Bloody Valentine to Cocteau Twins or Slowdive that fit the same purposes. Finally, there is always the omnipresence of Mazzy Star, Hope Sandoval or even Cowboy Junkies in Elian Tulve, Holy Motors’ lead singer mournful singing style of the purest and sweetest abandon.

Not being an original band in their musical and aesthetic purposes, Holy Motors aren’t less interesting because of it. Their field of action is completely imbued with mystery and dream, and, therefore, very intense. Revisiting what others – a few – have done in a pioneering way, reinventing and revitalizing an entire discourse that is send back to us in a sure and quite convincing way. We liked Holy Motors because we like the main sources where they drank from to compose their songs.

Personally, there was a greater momentum in their all performance: when they played the fabulous Sleeprydr in their breathtaking final solo. It was worthy the whole concert   because it brilliantly summarizes all the above-mentioned influences and on its own defines what is, in large part, shoegaze. Unforgettable!

Finally, I found the Estonian band concert unquestionably good, though more lukewarm than exhilarating. Good musicians, an excellent voice and a static and focused in the execution of their music stage stance. And fantastic songs that are what saves our days and nights. All in all, no small feature.

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texto e fotos: Guilherme Lucas

Holy Motors – Os Holy Motors (nome retirado ao enigmático e desconcertante filme de 2012, do realizador francês Leos Carax), realizaram o seu primeiro concerto de sempre em território nacional, na sala 2 do Hard Club, sendo que hoje cumprem a sua segunda, e última data lusa, em Lisboa.

Estes estonianos, de Tallin, andam até meados deste mês em tour pela Europa para apresentar o seu primeiro álbum de originais, de nome Slow Sundown e que já conta com quase um ano de existência desde que foi editado em Fevereiro de 2018. De resto, um belíssimo álbum com oito soberbas canções que merece uma escuta cuidadosa e demorada.

Os Holy Motors são uma banda que nos oferece pura magia em toda a sua plenitude, através de um discurso musical e temático que é profundamente cinemático e sedutor. É grupo de velocidade lenta, como num sonho hipnótico, enevoado, em que deambulamos sem rumo, como que a fugir aterrorizados por algo que nos persegue com objetivos sinistros. Toda a sua música é pontuada de pormenores sublimes que concorrem de forma apaixonada para a exaltação das nossas emoções mais recônditas, conseguindo emocionar-nos e transportar-nos para paragens da mais profunda beleza melancólica e absolutamente noir. São, de uma maneira muito própria, psicadélicos no suspense enigmático que as suas texturas sonoras nos transmitem.

O quinteto está musicalmente inserido dentro do shoegaze, com derivações residuais de algum post-punk, numa postura marcadamente indie-pop e muito por via de uma fórmula que é bastante identificável com alguns nomes maiores que assinaram a melhor música das últimas décadas. Há na sonoridade das guitarras destes Holy Motors os fantasmas seminais de um genial Rowland S. Howard (embora numa postura mais contida e bem menos incendiária) ou de um brilhante James Wilsey naquilo que remete para as paragens mais surf e dream pop das suas canções. Percebe-se também essa estética musical revisitada, pelos ambientes à la Morricone ou à la David Lynch nas ambiências mais obscuras e densas da sua música, um lado mais Tarantino, na sua vertente mais country-western e de “flamengo” obscuro, de toda uma escola que vai desde os My Bloody Valentine até aos Cocteau Twins ou Slowdive, entre outros, que se inserem nos mesmos propósitos. Finalmente há sempre a pairar a omnipresença de uns Mazzy Star, de uma Hope Sandoval ou até de uns Cowboy Junkies no estilo de canto dolente, do mais puro e doce abandono, de Elian Tulve, vocalista destes Holy Motors.

Não sendo uma banda original nos seus propósitos musicais e estéticos, estes Holy Motors não deixam de ser por isso menos interessantes. Porque o seu campo de ação é completamente imbuído de mistério e sonho, e muito intenso por isso. Revisitando o que outros – poucos – fizeram de forma pioneira, reinventam e revitalizam todo um discurso que nos é devolvido de forma convicta e bastante convincente. Gostamos destes Holy Motors porque gostamos das fontes iniciais a que eles foram beber para compor as suas canções.

Pessoalmente, existiu um momento maior em relação a todo o seu espetáculo quando interpretaram o fabuloso tema Sleeprydr no seu solo final, que foi de cortar a respiração. Valeu por todo o concerto porque condensa genialmente todas as influências atrás citadas e que por si só define o que é, em grande parte, o shoegaze. Inesquecível!

Finalizando, achei inquestionavelmente bom o concerto destes estonianos, embora mais para o morno do que para o entusiasmante. Bons músicos, uma excelente voz e uma postura em palco estática e muito compenetrada na execução da sua música. E canções fantásticas, que são o que nos salva os dias e as noites. É por aí, e já não é pouco.

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Holy Motors + Balter Youth, Hard Club, Porto, 09.01.2019 – Part 1 – Balmer Youth

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words: Guilherme Lucas (freely translated by Raquel Pinheiro); photos: Guilherme Lucas

Porto’s young sextet Balter Youth were selected as Estonian band Holy Motors support act on their first Portuguese concert at Hard Club.

Generally speaking Balter Youth create independent pop, or indie-pop to express ourselves more universally. It is only fair to say in this brief assessment that they do it very well. Their music if of the purest pop filigree, highly crystalline and subtle, pleasantly light as a fragrance.

Essentially, Balter Youth offered us are some good, well-crafted, pop songs. Of the sort which choruses are left in our ears after hearing them a few times. The type that can easily aim to airplay on any radio or network show, if that still has meaning these days. Just to state their universality and how easy it is to absorb their music, without complexes or major difficulties.

A plus the band shows, after carefully listening to their works on their Youtube channel and Soundcloud is that their songs are not of easy and obvious comparison with major and historical bands of universal reference. One recognizes some of them in their sound, but not in a very categorical or stylistic way, more as a faint suggestion, not so much as evidence. Therefore, there is an unpretentious ingenuity by its members that reveals itself in a sincere and carefree manner throughout their themes.

Upon a stage Balter Youth showed they had a very solid and capable project for whatever lies ahead. As they have good songs in a pop-teen style, but above all because their singer Inês Pinto da Costa has an excellent voice to sing their compositions, which in pop affairs is vital to go places. They appear to be a group in which all their forefronts and sides seem to be well protected and ready to achieve an ever greater public recognition, if there is ability – and some luck – for the group to grow with more shows in their resume, which will inevitably propel their songs to a wider audience. I liked them … they are good.

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texto e fotos: Guilherme Lucas

Abriram a noite de quarta-feira passada, os portuenses Balter Youth, jovem sexteto eleito para banda suporte aos estonianos Holy Motors, neste seu primeiro concerto nacional no Hard Club.

Os Balter Youth fazem genericamente pop de cariz independente, ou indie-pop para nos expressarmos de forma mais universal. E fazem-no muito bem de resto, para que se faça a devida justiça nesta breve apreciação. A sua música é da mais pura filigrana pop, muito cristalina e subtil, agradavelmente leve como uma fragrância.

São essencialmente algumas boas, e muito bem trabalhadas, canções pop aquilo que estes Balter Youth nos oferecem. Das que tem refrões que nos ficam no ouvido ao final de poucas audições. Das que podem ambicionar airplay sem problema algum, em qualquer rádio ou programa televisivo, se é que isso ainda signifique algo nos dias de hoje. Apenas para vincar a universalidade e a facilidade de absorver a sua música, sem complexos ou dificuldades de maior.

Uma mais-valia que o coletivo revela, numa escuta atenta aos seus trabalhos disponíveis no seu canal Youtube e Soundcloud, é que as suas canções não são de fácil e óbvia comparação com bandas maiores e históricas e de referência universal. Reconhecemos no seu som algumas delas, mas não de uma forma muito taxativa ou estilística, mas mais como uma ténue sugestão e não tanto como uma evidência. Há por isso um despretensioso engenho por parte dos seus elementos que se revela de forma sincera e despreocupada ao longo dos seus temas.

Os Balter Youth mostraram em palco ter um projeto muito sólido e capaz para o que há-de vir e tiver de ser. Porque possuem boas canções num estilo pop-adolescente, mas acima de tudo, porque também tem na sua vocalista Inês Pinto da Costa uma excelente voz a assinar as suas composições, o que nestas coisas da pop é vital para se conseguir ir a algum lado. Aparentam ser grupo em que todas as suas frentes e laterais parecem estar bem protegidas e prontas para alcançar um cada vez maior reconhecimento público, haja capacidade – e alguma sorte – para o grupo conseguir crescer com mais espetáculos no seu currículo, que inevitavelmente propagarão as suas canções a uma audiência mais vasta. Gostei deles… são bons.

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Guilherme Lucas’s 2018’s Concerts.

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Homem Em Catarse @ Woodstock 69 (c) Guilherme Lucas

words: Guilherme Lucas (freely translated by Raquel Pinheiro)
In 2018 I attended 156 concerts. Most of them were good, or very good, some excellent and very few, almost residual, that were bad or indifferent to me. I wrote about almost all of them in my no-future reviews. Here is the top of the ones that mean the most to me. It is a top to my measure and taste, not of a round number, but of all the bands that managed to be a little more (in concert) than the others. Those that did not appear on the list were also important and served mainly to differentiate levels, mostly small ones. To all of them my sincere thanks for being there and for the good times given to me. Special thanks to Woodstock 69 Rock bar, Mondo Bizarre Magazine, Portuguese Distortion and Lovers & Lollypops.
PLATINUM TOP – Best Concert
Homem em Catarse – Woodstock 69

GOLD TOP
1 – Johnny Hooker – Milhões de Festa
2 – Svederna Garde – Woodstock 69
3 – Bone Zeno – Barracuda – Clube de Roque
4 – MOOON – Woodstock 69
5 – Religião & Moral – Barracuda

SILVER TOP – all following concerts have no degree of classificatory importance, listed in a timeline order.
– Hellcharge – CAVE 45
– Era uma vez um tímpano – Woodstock 69
– Scott Kelly/John Judkins – Understage – Rivoli
– O Bom, o Mau e o Azevedo – Barracuda
– Fuzzil – Woodstock 69
– Sunflowers – Maus Hábitos – Espaço de Intervenção Cultural
– METZ – Hard Club
– Summer of Hate – Woodstock 69
– dreamweapon – Woodstock 69
– Nu No (Nuno Marques Pinto) – Cantinho da Teresinha
– PÉ ROTO – Woodstock 69
– Sekhmet – Antireligious BM – Metalpoint
– Official: Lydia Lunch – Galeria Municipal do Porto
– Fur Dixon – Barracuda
– The Cavemen (NZ) – Barracuda
– Greengo – Woodstock 69
– Sereias – Milhões de Festa
– Warmduscher – Milhões de Festa
– Vaiapraia – Milhões de Festa
– Bite The Bullet – Woodstock 69
– Eskizofrénicos – Barracuda
– Okoyome – Woodstock 69
– Marky Ramone – Hard Club
– Terebentina – Woodstock 69
– Harutaka Mochizuki/ Tomoyuki Aoki – Praça Alegria Futebol Clube
– Cavalheiro – Casa da Música
– The Saxophones – Hard Club
– Little Friend – Passos Manuel
– A Burial At Sea– Woodstock 69
– Andy Burns – CASA DO LIVRO
– It Was the Elf – Woodstock 69

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Johnny Hooker @ Milhões de Festa 2018 (C) Rafael Farias

texto: Guilherme Lucas

Neste ano de 2018 – que termina hoje – assisti a 156 concertos ao vivo. Na sua esmagadora maioria estes foram bons, ou muito bons, havendo uns poucos excelentes e uns muito poucos, quase que residuais, que foram maus ou que me foram indiferentes. Sobre quase todos eles escrevi nas minhas reviews sem futuro. Deixo aqui o meu top dos melhores de todos, daqueles que mais significaram para mim. É um top à minha medida e ao meu gosto e também não é um top de número redondo mas sim de todas as bandas que conseguiram ser um pouco mais (em concerto), do que as outras. As que não aparecem na lista também foram importantes e serviram sobretudo para conseguir diferenciar níveis, na maioria das vezes muito pequenos. A todas elas o meu agradecimento sincero por existirem e pelos bons momentos que me proporcionaram. Um especial agradecimento ao Woodstock 69 Rock bar, Mondo Bizarre Magazine, Portuguese Distortion e Lovers & Lollypops.

TOP PLATINA – Melhor concerto do ano
Homem em Catarse – Woodstock 69

TOP OURO
1 – Johnny Hooker – Milhões de Festa
2 – Svederna Garde – Woodstock 69
3 – Bone Zeno – Barracuda – Clube de Roque
4 – MOOON – Woodstock 69
5 – Religião & Moral – Barracuda

TOP PRATA – todos os concertos seguem sem grau de importância classificativa, seguindo numa ordem de linha do tempo.
– Hellcharge – CAVE 45
– Era uma vez um tímpano – Woodstock 69
– Scott Kelly/John Judkins – Understage – Rivoli
– O Bom, o Mau e o Azevedo – Barracuda
– Fuzzil – Woodstock 69
– Sunflowers – Maus Hábitos – Espaço de Intervenção Cultural
– METZ – Hard Club
– Summer of Hate – Woodstock 69
– dreamweapon – Woodstock 69
– Nu No (Nuno Marques Pinto) – Cantinho da Teresinha
– PÉ ROTO – Woodstock 69
– Sekhmet – Antireligious BM – Metalpoint
– Official: Lydia Lunch – Galeria Municipal do Porto
– Fur Dixon – Barracuda
– The Cavemen (NZ) – Barracuda
– Greengo – Woodstock 69
– Sereias – Milhões de Festa
– Warmduscher – Milhões de Festa
– Vaiapraia – Milhões de Festa
– Bite The Bullet – Woodstock 69
– Eskizofrénicos – Barracuda
– Okoyome – Woodstock 69
– Marky Ramone – Hard Club
– Terebentina – Woodstock 69
– Harutaka Mochizuki/ Tomoyuki Aoki – Praça Alegria Futebol Clube
– Cavalheiro – Casa da Música
– The Saxophones – Hard Club
– Little Friend – Passos Manuel
– A Burial At Sea– Woodstock 69
– Andy Burns – CASA DO LIVRO
– It Was the Elf – Woodstock 69

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Bone Zero @ Barracuda (c) Guilherme Lucas

Ghost Hunt, Café-Casa da Música, Porto, 26.12.2018

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words: Guilherme Lucas (freely translated by Raquel Pinheiro); photos Guilherme Lucas

Coimbra’s duo Ghost Hunt played last Wednesday at Café Casa da Música, Porto. The electronic music group are Pedro Oliveira keyboards and programming) and Pedro Chau (bass, vocals – already well-known within the Portuguese music scene for his career between no longer existing Tédio Boys and 77, currently in The Parkinsons and Subway Riders).
The most relevant thing to say about Ghost Hunt’s concert is that they are a serious band, very professional in the way they play music. They’re very good within their genre. Live, they so it all in a very cohesive and enlightened way. There is a well-thought-out and fluid project, straightforward, where themes roll in a logical and natural fashion, providing a show without less interesting or dead moments for those who see them live. I want to believe that in a one hour show they managed to large the audience that attended the concert – Café Casa da Música’s ample space was nearly full. The applause at the end of each theme proved such delight.
Broadly speaking Ghost Hunt play fresh, current electronic music, but there is an aspect or a way of playing it that derives from a past rock’n’roll culture. Perhaps it is that factor that makes it so organic and “human”. But it is not just that detail that helps such perception. The duo manages to make a very clever mix of stylistic genres ranging from krautrock to space-rock, to synth-pop-rock to darkwave, new-wave and post-punk. In Ghost Hunt’s music can be heard sonorities suggested by Kraftwerk or Tangerine Dream, but also Gary Numan, Orchestral Maneuvers in the Dark or New Order, the list being very long and diverse, as it results from a mixture of decades – and different bands and artists – that contribute as references to duo ‘s sound. This to also mention that is in their music, which is essentially very melodic and captivatingly pop with some experimentation, although very objective, punctual and short length. I will say the group’s themes share a great intimate ambient beauty, mixed with blinding sidereal explosions, with vertiginous psychedelic speeds through space, at times cold and mechanical, at times hot and melodically grandiose. There is a dark and obscure side to their themes as well as melancholic beauty that elevates towards something hopeful and liberating.
As a conclusion I will say that Ghost Hunt are a very interesting band quite of being carefully listened to. This project ennobles the current Portuguese music scene. They are one of those bands that make us proud, regardless of our liking or disliking of electronic music and so.

 

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texto e fotos: Guilherme Lucas

O duo coimbrense Ghost Hunt atuou, na passada quarta-feira, no espaço do Café Casa da Música, no Porto. Este grupo de música eletrónica é composto por Pedro Oliveira, na parte dos teclados e programações, e Pedro Chau no baixo e vocalizações (este último já é por demais conhecido dentro do panorama musical nacional, devido à sua carreira musical, repartida entre os extintos Tédio Boys e 77 e presentemente nos The Parkinsons e nos Subway Riders).
O que há a dizer de mais relevante deste seu concerto é que os Ghost Hunt são uma banda feita, séria, muito profissional na entrega à interpretação da sua música, sendo muito bons dentro da sua tipologia musical. Demonstraram precisamente tudo isto ao vivo, de uma forma muito coesa e esclarecida. Há um projeto muito bem pensado e fluído, sem espinhas, onde os seus temas sucedem-se de forma lógica e natural, proporcionando um espetáculo sem pontos mortos, ou menos interessantes, para quem assiste a um seu concerto. Em uma hora de espetáculo conseguiram, quero crer, cativar todo o numeroso público que afluiu ao concerto, e que encheu praticamente o amplo espaço do Café Casa da Música. As muitas palmas, nos finais de cada tema, eram prova desse agrado.
Os Ghost Hunt fazem genericamente música eletrónica, fresca e atual, dos nossos dias, mas há uma vertente, ou uma forma de a interpretar que deriva de toda uma cultura rock’n’roll que está no passado. É talvez esse fator que a faz ser tão orgânica e “humana”. Mas não é só esse pormenor que concorre para essa perceção. O duo consegue fazer uma muito acertada e despudorada mistura de géneros estilísticos que vão desde o krautrock ao space-rock, ao synth-pop-rock, à darkwave, new-wave e post-punk. Ouvimos na música dos Ghost Hunt sonoridades que nos sugerem os Kraftwerk ou os Tangerine Dream, mas também Gary Numan, Orchestral Manoeuvres in the Dark ou New Order sendo que a lista é muito extensa e diversa, pois resulta de uma mistura de décadas – e de diferentes bandas e artistas – que contribuem como referências para o som deste duo. Isto para referir também que se encontra na sua música, que essencialmente é muito melódica e cativantemente pop, alguma experimentação, embora de forma muito objetiva, pontual e de curta duração. Direi que os temas do grupo comungam de uma enorme beleza ambiental, intimista, misturada com fulminantes explosões siderais, de velocidades psicadélicas vertiginosas pelo Espaço, ora gélidas e maquinais, ora quentes e melodicamente grandiosas. Há um lado negro e obscuro nos seus temas mas também uma beleza melancólica que nos eleva para algo esperançoso e libertador.
Direi, em jeito de conclusão, que estes Ghost Hunt são uma banda deveras interessante e muito merecedores de uma escuta atenta. Engrandecem, com este seu projeto, o atual panorama musical nacional. De tal forma, que são daquelas que nos dão orgulho, mesmo que se goste, ou não, de música eletrónica e afins.

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Baleia, Baleia, Baleia, Woodstock 69, Porto, 21.12.2018.

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words: Guilherme Lucas (freely translated by Raquel Pinheiro); photos Guilherme Lucas

Porto’s duo Baleia, Baleia, Baleia played at Woodstock 69 on Friday night. Baleia are a relatively new band in the Portuguese music scene. They come to be in 2015, but only in 2016 did the project had a defined shape. So far, they have two albums on their resume (Botaperna, July 2017 (a live recording), and Baleia, Baleia, Baleia, March 2018). It has been several months since they’ve been their latest album. This show, within Tour das Rabanadas (French Toast Tour) comprising seven gigs during Christmas and end of the year, was part of that goal.

Baleia, Baleia, Baleia are a somehow particular band within our current musical landscape that a lot of interest from several sides of specialized music review as well as from the general public. Simplifying, they’re hype. What makes them so?

Looking closely at their repertoire it seems clear to me that it all derives a lot from a very intelligent fusion with a sense of humo of a whole inheritance/tradition of singing and writing similar to some of the biggest Portuguese pop-rock acts of the last decades, backed by a very powerful (and addictive) varied instrumental within Anglo-Saxon pop-rock-metal.

Many of the vocals and choruses with which vocalist/bassist Manuel Molarinho expresses himself, among others, clear suggest references Heróis do Mar or Ana Deus, Reporter Estrábico or even the more recent Vaiapraia. His lyrics also have a very well structured analysis of daily life viewed form an adolescent anguish perspective. A simple, deep and accurate writing, within a programmatic construction of reality, at times surrealistic and pamphletary. Never disconnected from the main goal:  pass to us messages and feelings inspired and universal, just as if we were sweetly bitten by a bee. All in a very direct manner, through a quite crystalline singing so that everyone understands what they are telling us.

Finally, they operate on a melting pot of musical influences, ranging from punk to new-wave, hard-rock to stoner to doom to psychedelic … and the list goes on, but performed in a pop, purposeful with a very unique sound. In that regard, there aren’t too many unnecessary excesses or instrumental reveries; only what is strictly necessary to build good pop songs, heavy sounded, but not enough to classify them as an overtly heavy band. There is also joy, even if acid and at times insane emanating from their themes placing them in a palette of colours sufficiently distant from dark and obscure, or a deeper and more strict underground. In that, they also make a difference.

Live, Manuel Molarinho and Ricardo Cabral (drummer) proved to be excellent musicians. The type who manages to simplify where others only complicate to show vain skills. The duo is very pleasantly surprising in the natural way their live songs sound, but above all by the excellent and very well defined bass lines, which are remarkable. Baleias most famous theme (I Want to be a Screen) is the best example of what I mean: one of the best bass lines I remember listening to in recent years: simply brilliant! But, there is much more.

Baleias are a good live band; they perfectly fulfill what their songs demand, in a very empathetic and friendly way with the audience. I find it hard not to like them, unless one dislikes their repertoire from the start. One realizes that it is a group that has something more than many others; no longer “one more in the pile” even though this is not always possible to be described by words.

The two musicians played all the themes from Baleia, Baleia, Baleia along with a cover of Daniel Catarino’s Adultério na Igreja and a cover of Mão Morta’s Cão de Morte in the middle. It was a good show, with the most well lit and best decorated stage I’ve seen so far at Woodstock 69 and beyond. At the end of the performance desired, and, in my view, well deserved both for audience and band, encore didn’t happen.

In a nutshell: Whales offered an excellent Friday night for those who went to their concert. It was a good and, therefore, advisable!

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texto e fotos: Guilherme Lucas

O dueto portuense Baleia Baleia Baleia apresentou-se ao vivbo no Woodstock 69, na noite da passada sexta-feira. Estes Baleias são uma banda ainda relativamente recente no nosso panorama musical nacional. Formaram-se em 2015, mas só em 2016 é que o projeto ficou definido. Contam, até esta data, com dois álbuns no seu currículo (Botaperna, de Julho de 2017 (um registo ao vivo), e Baleia, Baleia, Baleia, de Março de 2018). Andam por isso, há já alguns meses a divulgar em concerto este seu mais recente trabalho, e este espetáculo fez parte desse objetivo, inserido na Tour das Rabanadas de sete datas nacionais, durante este período natalício e de final do ano.

Os Baleia, Baleia, Baleia são uma banda algo particular dentro do nosso atual panorama musical e que tem gerado bastante interesse por parte de diversos quadrantes de alguma crítica musical especializada, mas também do público em geral. Ou seja, e simplificando, são hype. E então qual o motivo para tal?

Parece-me evidente, ao analisar atentamente o repertório da banda, que todo ele deriva muito pelo facto de que fundem, de forma muito inteligente e com sentido de humor, toda uma herança/tradição de canto e de escrita, que encontra similaridade com alguns nomes maiores do universo pop/rock português das últimas décadas, apoiado por um instrumental muito poderoso (e viciante), musicalmente variado dentro de tipologias pop/rock/metal anglo-saxónicas.

Encontramos em muitas das vocalizações e refrões com que o vocalista e baixista Manuel Molarinho se exprime, claras sugestões que nos remetem para uns Heróis do Mar ou uma Ana Deus, uns Repórter Estrábico ou até a um mais recente Vaiapraia, entre outras. Mas também há nas suas letras uma muito bem estruturada análise do quotidiano numa perspetiva de angústia adolescente, com uma escrita simples, profunda e certeira, dentro de uma construção programática algo surrealista e panfletária da realidade, mas que jamais se desliga da intenção primeira de nos transmitir mensagens e sentimentos inspirados e universais, tal como se fossemos docemente picados por uma abelha. Tudo isto de forma muito direta, através de um canto muito cristalino para que todos entendam o que nos estão a transmitir.

Finalmente, operam num “melting pot” de influências musicais, que vão desde o punk à new-wave, ao hard-rock, ao stoner, ao doom, ao psicadélico… e a lista fica um pouco para o infindável, mas que são todas elas executadas de uma forma pop, objetiva e com um som muito próprio. Não há nesse sentido, muitos excessos ou devaneios instrumentais desnecessários; só concorre o estritamente necessário para edificar boas canções de cariz pop, com um som que é pesado, mas não o suficiente para os classificar como banda ostensivamente pesada. Existe também uma alegria, mesmo que ácida e algo insana, que emana dos seus temas e que os localiza numa palete de cores suficientemente afastada do negro e do obscuro, ou de um underground mais profundo e rígido. E neste aspeto também marcam diferenças.

Em concerto, Manuel Molarinho e Ricardo Cabral (baterista), demonstraram ser excelentes músicos, daqueles que conseguem simplificar onde outros só complicam para exibir competências vãs. O dueto surpreende muito agradavelmente pela forma natural como faz soar as suas canções ao vivo, mas acima de tudo pelas excelentes e muito bem definidas linhas de baixo, que são de assinalável destaque. O tema mais famoso dos Baleia (Quero ser um Ecrã), é o melhor exemplo do que refiro: uma das melhores linhas de baixo de que me lembro de escutar nos últimos anos: simplesmente brilhante! Mas há muitas mais, para além dessa.

Estes Baleias são uma boa banda ao vivo; cumprem na perfeição o que as suas canções exigem, num registo muito empático e amistoso com o público. Acho difícil não se gostar deles, a menos que se deteste o seu repertório à partida. Percebe-se que é grupo que tem mais alguma coisa do que muitos outros; que não é mais um do “monte”, mesmo que isso nem sempre seja possível de ser descrito por palavras.

Os dois músicos interpretaram todos os temas do seu álbum Baleia, Baleia, Baleia conjuntamente com a versão de Adultério na Igreja, de Daniel Catarino e a versão dos Mão Morta, Cão de Morte, que foram introduzidas lá pelo meio. Foi um bom espetáculo este a que assisti, e com o palco mais bem iluminado e melhor decorado que presenciei até à data no Woodstock 69, e não só. No final da atuação não houve direito a um desejado encore, algo que acho que era bem merecido, tanto para o público como para a banda.

Resumindo: estes Baleias proporcionaram uma excelente noite de sexta a quem se deslocou ao seu concerto. Foi coisa boa, e por isso, aconselhável!

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